O caminho do chá
Os japoneses têm com a delicada e aromática infusão uma relação ancestral, que remonta ao século XII, e contribuíram decisivamente para difundi-la no Brasil
Luiz Carlos Zanoni
Ele retirou com cuidado o miolo do pão, preservando a casca, e, na cavidade, depositou as sementes, uma a uma, 100 ao todo. Foi assim que Torazo Okamoto driblou os guardas da alfândega do Porto de Kolamba, a antiga capital do Sri Lanka. Naquela época, 1935, a instrução era para que não passasse sequer uma semente de Camellia sinensis, a valiosa árvore do chá, fundamental à economia do país. No navio que o trouxe de volta ao Brasil, Torazo plantou-as em vasos de cerâmica, conseguindo que 65 delas vingassem. Hoje, quase centenárias, essas árvores formam o canteiro mais importante da fazenda que a família possui no Vale do Ribeira. Ricardo Okamoto, neto de Torazo, tem orgulho em mostrá-las aos visitantes. Afinal, foi com as sementes por elas produzidas que se multiplicaram as plantações nessa região, fonte, atualmente, de quase todo o chá produzido no Brasil.
A aventura, entretanto, não se deu apenas por motivações econômicas. Os japoneses têm com a delicada e aromática infusão uma relação ancestral, que remonta ao século XII, quando, nos mosteiros Zen, os monges expressaram sua filosofia de vida num ritual batizado de chado, ou o caminho do chá. A cerimônia, sempre coletiva, faz do preparo e da partilha da bebida um ato quase religioso, onde se exercita a pureza da mente e são reverenciadas as coisas simples da vida. Os muitos japoneses radicados no Brasil, além de habituados a consumir o chá no cotidiano, necessitavamno para tais ocasiões. As primeiras plantações, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e na Ilha do Governador, datam, contudo, de 1810, cabendo a dom João VI a iniciativa. Ele sonhava fazer do Brasil um centro produtor semelhante a Macau, cujas exportações para a Europa renderam generosos lucros a Portugal.
Além de sementes, mandou vir dessa colônia lusa na Ásia 100 chineses, supostamente peritos na cultura. Tudo deu errado. A espécie de Camellia sinensis trazida mostrou-se inadequada, e os chineses não eram peritos. O monarca assimilou o fracasso. Desviou seu interesse para a exportação de café, produto sem concorrente no mercado europeu, bem o oposto do chá, que a Índia oferecia a baixo custo e com qualidade. As árvores do Jardim Botânico viraram plantas ornamentais. Nas décadas seguintes, outras experiências, também sem sucesso, aconteceram em Minas Gerais e São Paulo. Torazo chegou ao Brasil em 1919, com 23 anos. Formara-se no Japão como técnico na fabricação de chá verde. O grupo de imigrantes do qual participava se radicou no Vale do Ribeira, e ele não demorou a perceber o potencial da região para a cultura. Obteve mudas de uma fazenda paulista e iniciou o projeto. "Meu avô produzia chás verde e preto, mas, percebendo as limitações das plantas, decidiu buscar espécies melhores", diz Ricardo.
Em 1935, Torazo viajou para o Japão para a compra de máquinas necessárias ao processamento do produto, e, ao retornar, na escala no Sri Lanka, raptou as sementes da espécie assâmica, a que oferece os melhores e mais produtivos chás no norte da Índia. Registro, o principal município da região, deve-lhe o título de capital brasileira do chá. Mas as coisas não vão bem. O setor depende das exportações, ultimamente quase inviabilizadas pela valorização do real diante do dólar. A produção do Vale do Ribeira se retraiu em escala brutal. Muitas fazendas foram abandonadas. A bebida, no entanto, é a mais consumida no mundo, tendo a Índia como principal produtor (850 milhões de toneladas ao ano), seguida de China, Taiwan, Sri Lanka, Indonésia e Japão. São vários os chás, mas, entre os especialistas, só merecem esse nome aqueles feitos com as folhas da Camellia sinensis, planta do sudeste asiático que, em fase adulta, atinge altura superior a 10 metros.
Sua propagação pelo mundo originou diversas espécies, com as características de solo e clima de algumas regiões distinguindo a qualidade do produto. Os procedentes de localidades como Darjeeling, na Índia, ou Kenilworth, no Ceilão, alcançam elevadas cotações. E, como no vinho, a safra também influencia. Carla Saueressig, consultora no assunto e representante para a América Latina da marca alemã TeeGschwendener, conta que, em 1990, a empresa adquiriu uma colheita excepcional do canteiro de Tutaboong, em Darjeeling. Foi vendida em doses homeopáticas às filas de clientes que se formaram já de madrugada diante das lojas. Os produtores costumam fazer blends, misturar folhas de diferentes regiões. O conhecido English Breakfast resulta da mescla de chás de Nilgiri, na Índia, com os do Ceilão. Também se usam frutas e flores para aromatizá- los. O Earl Grey, chá preto chinês, é perfumado com óleo de bergamota.
Os chás, conforme o modo de beneficiamento, dividem-se em três tipos básicos - preto, verde e oolong. O preto passa por completa fermentação, em tanques fechados, o que dá à bebida um tom vermelho-escuro e fortes sabores. No caso do verde, não há fermentação, apenas secam-se as folhas. O gyokuro (gotas de orvalho), do Japão, está entre os melhores, famoso pela doçura - as folhas, cobertas com telas antes da colheita, perdem os taninos, elemento responsável pelo travo amargo quando presente em excesso. O oolong fica num meio-termo, já que a fermentação é interrompida antes de se completar. Muito suave, mas pouco consumido no Brasil. Há uma imensa quantidade de outras flores e ervas que podem ser preparadas como chá, as chamadas infusões, ou tisanas. A lista inclui nomes familiares, como camomila, jasmim e erva-doce, ao lado de outros, como casca-sagrada, ginko biloba e capim-cidrão. A muitas delas são atribuídas propriedades medicinais, sem, contudo, nenhuma base científica. Os chás genuínos, ao contrário, têm seu valor terapêutico comprovado. O verde é generoso em flavonóides, substância antioxidante que neutraliza os radicais livres responsáveis pelo envelhecimento precoce.
Mas, em sua A Loja do Chá, em São Paulo, Carla lamenta a tendência entre os brasileiros de encarar só como remédio uma bebida que dá imenso prazer. Os chás são aromáticos, saborosos, melhores que café ou refrigerante, próprios para todo momento, mesmo às refeições. O preto é o campeão na harmonização com comidas, doces ou salgados. Ela aconselha o consumo dos chás verde, preto e oolong preferencialmente durante o dia, por conter cafeína. À noite, caem melhor as infusões. A seus clientes, Carla recomenda que comprem a granel, analisando o tamanho das folhas, a cor e o aroma. Em sachê fica difícil fazê-lo, além de que o saquinho de papel altera o sabor do produto. O consumidor deve também ficar de olho na data de fabricação. A validade de um chá ou infusão é em torno de dois a três anos, depois oxida, não importa o tipo de embalagem usado. O chá, não há dúvida, nasceu na China. As evidências arqueológicas mostram que, há 500 000 anos, na era paleolítica, já era lá preparado. A história de seu surgimento fica melhor, porém, na versão da velha lenda. Aconteceu no ano 2737 a.C., quando reinava o imperador Shen Nung, pai da medicina tradicional chinesa. Por razões sanitárias, ele sempre fervia a água antes de bebê-la. Um dia, o vento lançou na caneca uma folha da árvore sob a qual estava e a água ganhou outra cor. O imperador julgou ser um feitiço, mas, ao provar, a sensação de paz e tranqüilidade foi tamanha que a bebida virou um hábito, logo adotado por todo o reino, e predestinado a correr mundo.
No Reino Unido, milênios depois, tornou-se uma religião às 5 da tarde. E fez história nos Estados Unidos, onde a decisão inglesa de elevar as taxas sobre a importação do produto acionou o movimento pela independência do país. O chá chegou ao Japão levado pelos budistas. Muito consumido pelos monges, ajudava a mantê-los acordados nos longos períodos de meditação. A cerimônia do chá foi criada e desenvolvida por eles, com base na filosofia Zen. "Se você compreender uma coisa completamente, compreenderá tudo." Dá-se num recinto pequeno, com alguns tatames e absoluta simplicidade na decoração: vasos de flores, quadros de motivos naturais e os utensílios necessários para preparar e servir a bebida, o matcha, um tipo de chá verde pulverizado. Algumas salas costumam levar a um pequeno jardim, cuja apreciação é fonte de inspiração aos participantes. Um dos nomes dados à cerimônia é chanoyu, ou água para o chá. Nisso ela se resume, mas a mágica está na maneira como é feita. A pureza da mente vem em primeiro, deve guiar cada gesto e palavra. Os convidados são tratados sem distinção e têm a oportunidade de esquecer os problemas cotidianos, percebendo a vida com um olhar diferente, em equilíbrio com a natureza.
Prevalece a idéia do ichigo ichie: um momento, um encontro. A ritualização busca a plena consciência de cada instante, pois, sendo único, esse encontro nunca mais se repetirá. O ápice é o ato do preparo do chá. Feito por um grande mestre, lembra um balé, pela harmonia e suavidade dos movimentos. Não há sentido religioso - apenas a partilha da experiência espiritual. Em São Paulo e no Paraná, as associações nipônicas promovem cerimônias abertas ao público, como forma de preservar um aspecto importante de sua cultura. Carla, que é gaúcha, vê muitos pontos em comum entre o chanoyu e o ritual do chimarrão, nos pampas do Sul.
A aventura, entretanto, não se deu apenas por motivações econômicas. Os japoneses têm com a delicada e aromática infusão uma relação ancestral, que remonta ao século XII, quando, nos mosteiros Zen, os monges expressaram sua filosofia de vida num ritual batizado de chado, ou o caminho do chá. A cerimônia, sempre coletiva, faz do preparo e da partilha da bebida um ato quase religioso, onde se exercita a pureza da mente e são reverenciadas as coisas simples da vida. Os muitos japoneses radicados no Brasil, além de habituados a consumir o chá no cotidiano, necessitavamno para tais ocasiões. As primeiras plantações, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e na Ilha do Governador, datam, contudo, de 1810, cabendo a dom João VI a iniciativa. Ele sonhava fazer do Brasil um centro produtor semelhante a Macau, cujas exportações para a Europa renderam generosos lucros a Portugal.
Além de sementes, mandou vir dessa colônia lusa na Ásia 100 chineses, supostamente peritos na cultura. Tudo deu errado. A espécie de Camellia sinensis trazida mostrou-se inadequada, e os chineses não eram peritos. O monarca assimilou o fracasso. Desviou seu interesse para a exportação de café, produto sem concorrente no mercado europeu, bem o oposto do chá, que a Índia oferecia a baixo custo e com qualidade. As árvores do Jardim Botânico viraram plantas ornamentais. Nas décadas seguintes, outras experiências, também sem sucesso, aconteceram em Minas Gerais e São Paulo. Torazo chegou ao Brasil em 1919, com 23 anos. Formara-se no Japão como técnico na fabricação de chá verde. O grupo de imigrantes do qual participava se radicou no Vale do Ribeira, e ele não demorou a perceber o potencial da região para a cultura. Obteve mudas de uma fazenda paulista e iniciou o projeto. "Meu avô produzia chás verde e preto, mas, percebendo as limitações das plantas, decidiu buscar espécies melhores", diz Ricardo.
Em 1935, Torazo viajou para o Japão para a compra de máquinas necessárias ao processamento do produto, e, ao retornar, na escala no Sri Lanka, raptou as sementes da espécie assâmica, a que oferece os melhores e mais produtivos chás no norte da Índia. Registro, o principal município da região, deve-lhe o título de capital brasileira do chá. Mas as coisas não vão bem. O setor depende das exportações, ultimamente quase inviabilizadas pela valorização do real diante do dólar. A produção do Vale do Ribeira se retraiu em escala brutal. Muitas fazendas foram abandonadas. A bebida, no entanto, é a mais consumida no mundo, tendo a Índia como principal produtor (850 milhões de toneladas ao ano), seguida de China, Taiwan, Sri Lanka, Indonésia e Japão. São vários os chás, mas, entre os especialistas, só merecem esse nome aqueles feitos com as folhas da Camellia sinensis, planta do sudeste asiático que, em fase adulta, atinge altura superior a 10 metros.
Sua propagação pelo mundo originou diversas espécies, com as características de solo e clima de algumas regiões distinguindo a qualidade do produto. Os procedentes de localidades como Darjeeling, na Índia, ou Kenilworth, no Ceilão, alcançam elevadas cotações. E, como no vinho, a safra também influencia. Carla Saueressig, consultora no assunto e representante para a América Latina da marca alemã TeeGschwendener, conta que, em 1990, a empresa adquiriu uma colheita excepcional do canteiro de Tutaboong, em Darjeeling. Foi vendida em doses homeopáticas às filas de clientes que se formaram já de madrugada diante das lojas. Os produtores costumam fazer blends, misturar folhas de diferentes regiões. O conhecido English Breakfast resulta da mescla de chás de Nilgiri, na Índia, com os do Ceilão. Também se usam frutas e flores para aromatizá- los. O Earl Grey, chá preto chinês, é perfumado com óleo de bergamota.
Os chás, conforme o modo de beneficiamento, dividem-se em três tipos básicos - preto, verde e oolong. O preto passa por completa fermentação, em tanques fechados, o que dá à bebida um tom vermelho-escuro e fortes sabores. No caso do verde, não há fermentação, apenas secam-se as folhas. O gyokuro (gotas de orvalho), do Japão, está entre os melhores, famoso pela doçura - as folhas, cobertas com telas antes da colheita, perdem os taninos, elemento responsável pelo travo amargo quando presente em excesso. O oolong fica num meio-termo, já que a fermentação é interrompida antes de se completar. Muito suave, mas pouco consumido no Brasil. Há uma imensa quantidade de outras flores e ervas que podem ser preparadas como chá, as chamadas infusões, ou tisanas. A lista inclui nomes familiares, como camomila, jasmim e erva-doce, ao lado de outros, como casca-sagrada, ginko biloba e capim-cidrão. A muitas delas são atribuídas propriedades medicinais, sem, contudo, nenhuma base científica. Os chás genuínos, ao contrário, têm seu valor terapêutico comprovado. O verde é generoso em flavonóides, substância antioxidante que neutraliza os radicais livres responsáveis pelo envelhecimento precoce.
Mas, em sua A Loja do Chá, em São Paulo, Carla lamenta a tendência entre os brasileiros de encarar só como remédio uma bebida que dá imenso prazer. Os chás são aromáticos, saborosos, melhores que café ou refrigerante, próprios para todo momento, mesmo às refeições. O preto é o campeão na harmonização com comidas, doces ou salgados. Ela aconselha o consumo dos chás verde, preto e oolong preferencialmente durante o dia, por conter cafeína. À noite, caem melhor as infusões. A seus clientes, Carla recomenda que comprem a granel, analisando o tamanho das folhas, a cor e o aroma. Em sachê fica difícil fazê-lo, além de que o saquinho de papel altera o sabor do produto. O consumidor deve também ficar de olho na data de fabricação. A validade de um chá ou infusão é em torno de dois a três anos, depois oxida, não importa o tipo de embalagem usado. O chá, não há dúvida, nasceu na China. As evidências arqueológicas mostram que, há 500 000 anos, na era paleolítica, já era lá preparado. A história de seu surgimento fica melhor, porém, na versão da velha lenda. Aconteceu no ano 2737 a.C., quando reinava o imperador Shen Nung, pai da medicina tradicional chinesa. Por razões sanitárias, ele sempre fervia a água antes de bebê-la. Um dia, o vento lançou na caneca uma folha da árvore sob a qual estava e a água ganhou outra cor. O imperador julgou ser um feitiço, mas, ao provar, a sensação de paz e tranqüilidade foi tamanha que a bebida virou um hábito, logo adotado por todo o reino, e predestinado a correr mundo.
No Reino Unido, milênios depois, tornou-se uma religião às 5 da tarde. E fez história nos Estados Unidos, onde a decisão inglesa de elevar as taxas sobre a importação do produto acionou o movimento pela independência do país. O chá chegou ao Japão levado pelos budistas. Muito consumido pelos monges, ajudava a mantê-los acordados nos longos períodos de meditação. A cerimônia do chá foi criada e desenvolvida por eles, com base na filosofia Zen. "Se você compreender uma coisa completamente, compreenderá tudo." Dá-se num recinto pequeno, com alguns tatames e absoluta simplicidade na decoração: vasos de flores, quadros de motivos naturais e os utensílios necessários para preparar e servir a bebida, o matcha, um tipo de chá verde pulverizado. Algumas salas costumam levar a um pequeno jardim, cuja apreciação é fonte de inspiração aos participantes. Um dos nomes dados à cerimônia é chanoyu, ou água para o chá. Nisso ela se resume, mas a mágica está na maneira como é feita. A pureza da mente vem em primeiro, deve guiar cada gesto e palavra. Os convidados são tratados sem distinção e têm a oportunidade de esquecer os problemas cotidianos, percebendo a vida com um olhar diferente, em equilíbrio com a natureza.
Prevalece a idéia do ichigo ichie: um momento, um encontro. A ritualização busca a plena consciência de cada instante, pois, sendo único, esse encontro nunca mais se repetirá. O ápice é o ato do preparo do chá. Feito por um grande mestre, lembra um balé, pela harmonia e suavidade dos movimentos. Não há sentido religioso - apenas a partilha da experiência espiritual. Em São Paulo e no Paraná, as associações nipônicas promovem cerimônias abertas ao público, como forma de preservar um aspecto importante de sua cultura. Carla, que é gaúcha, vê muitos pontos em comum entre o chanoyu e o ritual do chimarrão, nos pampas do Sul.
CENTRO DE CHADO URASENKE DO BRASIL
Rua São Joaquim, 381, 4o andar, sala 44, Liberdade, tel. (11) 3813-6722, São Paulo, SP
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Publicada na edição 187 (Maio/2008) da Gula
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